A egressa do curso de Direito do Centro Universitário Evangélico de Goianésia (UNIEGO) Maria Vitória Gomes da Silva, de 24 anos, foi aprovada na primeira tentativa no 46º Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Com deficiência visual desde o nascimento, ela contou sua trajetória em entrevista à RVC FM, ao lado do reitor da instituição, professor José Mateus dos Santos.
Alfabetizada em braile ainda criança, com o auxílio de uma professora de apoio de Goianésia, Maria Vitória decidiu seguir a advocacia aos 13 anos, motivada pelo gosto por debates e pelo interesse nas leis. Na graduação, contou com o que se chama de adaptações razoáveis. No início, professores faziam a leitura das provas. Depois, ela passou a responder às avaliações pelo computador, o que lhe deu mais autonomia.
“O Direito é um curso que não é, eu diria, visual, então foram necessárias algumas adaptações”, explicou.
O apoio de colegas também fez diferença. Uma amiga do ensino médio cursou Direito na mesma turma e a ajudava com leituras e atividades. Durante o curso, Maria Vitória participou de grupos de estudo e pesquisa, estagiou por três anos na Delegacia de Polícia Civil de Goianésia e também no Ministério Público. Foi ainda escolhida oradora da turma na colação de grau.
Imprevisto na segunda fase
Para o exame, Maria Vitória solicitou atendimento especializado. Os recursos pedidos foram tempo adicional, um computador com o leitor de tela NVDA e o apoio de uma ledora. Na segunda fase, porém, o equipamento fornecido pela banca apresentou problemas, e ela precisou ditar à ledora toda a peça jurídica e as respostas, incluindo cada sinal de pontuação.
“Eu fiquei com muito receio de não ser aprovada devido ao problema que eu tive com o computador”, relatou.
Quando o resultado saiu, foi uma amiga quem conferiu a lista. “Ela falou que eu tinha sido aprovada. Eu falei: ‘Mentira!’”, lembrou, aos risos.
Para o reitor, que acompanhou a aluna durante a graduação, inclusive em um grupo de estudos, o resultado já era esperado. “A Maria Vitória passar de primeira no exame da OAB não foi surpresa nenhuma para mim”, afirmou.
Próximos passos
A nova advogada tem interesse em atuar nas áreas de Direito Criminal, Previdenciário, Digital, Família e Sucessões e Direito da Pessoa com Deficiência. Sobre esta última, o reitor destacou a carência de profissionais. “A pessoa com deficiência carece de respaldo jurídico mais do que nunca. É uma área que precisa de pessoas ativistas, e ninguém melhor do que a Maria para trilhar esse caminho”, disse.
Maria Vitória também quer seguir a carreira acadêmica, e o UNIEGO pretende incentivá-la. “O nosso objetivo agora é ajudá-la a chegar ao mestrado, porque a gente quer muito que a Maria Vitória seja nossa professora”, contou José Mateus.
Para o reitor, a história mostra o alcance da educação quando há condições adequadas de aprendizagem. “Não só a tecnologia, que facilita, mas também as pessoas, a abertura e a educação são capazes de fazer com que alguém trilhe o caminho do conhecimento. E esse conhecimento transforma”, concluiu.
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